The Bang Bang clube e a insensibilidade dos dias atuais

Qual o seu sentimento quando vê a foto a seguir?

Essa foto foi feita em 1993 no Sudão pelo fotógrafo Sul Africano Kevin Carter. Na ocasião, Kevin afirma ter visto a criança desfalecendo de fome tentando alcançar o local aonde Trabalhadores da ONU entregavam comida. Atrás da criança um abutre a espreitava a espera de sua morte.

Antes de continuarmos a história, vamos falar sobre Kevin e o que mais tarde ficou conhecido como The Bang Bang club.

Quem foi o Clube do Bangue-Bangue?

 Clube do Bangue-Bangue foi um nome dado pela imprensa a quatro fotógrafos que atuavam dentro dos townships da África do Sul entre os anos de 1990 e 1994, durante a transição do regime de apartheid. Composto pelos fotógrafos Kevin Carter, Ken Oosterbroeck, João Silva e Greg Marinovich, sendo este o último a se juntar ao grupo.

O grupo ficou conhecido por tirar fotos de momentos críticos e extremamente sensíveis que chocaram as pessoas no mundo inteiro. O valioso trabalho deles trazia ao mundo atenção as coisas absurdas que aconteciam na África do Sul. Com suas fotos eles davam vozes aos menos favorecidos e permitiam que recebessem mais atenção. Por suas fotos mostrarem a realidade trágica, o mundo não podia ignorar o que estava acontecendo e ações eram tomadas. Aos poucos, as fotos se transformavam em denúncias, o que não negava que o trabalho deles era nobre.

 A história desses homens ficou tão famosa que em 2011 lançaram um filme biográfico sobre o trabalho deles.

 Dado o contexto, vamos voltar a história da foto. Kevin Carter estava lá parado, vendo a criança sendo perseguida por um abutre. Depois de registrar o momento Kevin afirmou algumas vezes que espantou o abutre, outras vezes ele disse que foi embora. Seja qual a versão, no fim ele se foi e deixou a criança para trás. Na bolsa a foto perfeita, aquela foto que mais tarde lhe rendeu um prêmio Pulitzer, também o assombrou até o dia de sua morte.

Depois que a foto viralizou, milhares de pessoas culparam Kevin por não ter ajudado a criança, por não saber o paradeiro dela. No mundo todo as pessoas falavam sobre a atitude cruel do fotógrafo e escreviam cartas aos jornais com ameaças a ele. O que acabou afetando os outros amigos do The Bang Bang club. As fotos de seus trabalhos foram vistas como cruéis e assustadoras. Como quando Greg Marinovich fotografou um homem sendo esfaqueado e mais tarde tendo o corpo incendiado ainda vivo. Ou quando João Silva fotografou o próprio amigo Greg Marinovich depois de levar um tiro. Cansado de toda repercussão negativa e de problemas pessoais, a depressão tomou conta de Kevin que tirou sua vida no ano seguinte.

Meses antes, Ken havia falecido vítima de bala perdida enquanto fotografava um protesto. Greg e João, por sua vez, ainda estão vivos. João perdeu as pernas em 2010 após uma expedição fotográfica pelo Afeganistão. Greg escreveu um livro contando a história de seus amigos e hoje mantém suas fotos longe das guerras.

Mesmo anos após  tudo isto, sempre que alguém se depara com as fotos sente um incômodo e até culpa os fotógrafos por suas ações. Bem, eu acredito que as razões desses homens eram nobres, porém, em algum momento, o coração foi levado a agir com insensibilidade. Até porque, como fotógrafos eles eram proibidos de tocar nas pessoas, ou agirem ao seu favor. Estando em cenário de guerra, eles eram obrigados a não se intrometeram para se proteger. Desta forma, eram forçados a serem insensíveis ou não cumpririam seu trabalho.

O fenômeno da Dessensibilização: O “calo” no cérebro

 Existe um fenômeno no cérebro chamado Dessensibilização. É quando você faz algo por várias vezes até perder a sensibilidade daquilo. Como ter um calo nas mãos depois de muitos anos trabalhando com enxadas. Só que esse “calo” é no cérebro. Você para de ver aquilo como algo que te incomoda. Não estou dizendo aqui que os fotógrafos se tornaram pessoas ruins, mas à medida que ganhavam prêmios e atenção, era importante ter a foto perfeita. Já não importava se era um amigo ferido ou uma criança morrendo, tinha de ter uma foto. Quando voltaram a razão, se sentiram chocados e triste consigo mesmo. Já não estavam fazendo apenas por denúncia, mas por atenção.

 É fácil sentar-se atrás de um computador e criticar os fotógrafos, mas o mesmo não tem sido feito hoje? Com a facilidade de ter uma câmera na mão, hoje está cada vez mais frequente fotos e vídeos de pessoas acidentadas, sofrendo agressão, ou até mortas por toda a internet. A insensibilidade chegou ao ponto das pessoas não pararem para socorrer as outras, mas tirarem seus dispositivos do bolso e registrarem o momento, quem sabe assim não ganha mais seguidores na internet?!

 Em novembro de 2025 uma mulher de 31 anos chamada Tainara Souza foi atropelada pelo ex-companheiro e teve o corto arrastado pelas ruas. Horas depois diversos vídeos circulavam as redes do momento que o carro parou e Tainara tinha seu corpo exposto. As pessoas não pensaram em proteger a dignidade dela, cobri-la. Ao invés disso, estavam com seus celulares nas mãos filmando e compartilhando em busca de like. Dessensibilização.

 Em que momento seu cérebro parou de ver o ser humano e começou a ver apenas chance de chamar atenção?

Você pode fazer alguma coisa além de fotografar, não se torne insensível ao sofrimento alheio.

 E o que aconteceu com a criança que Kevin Carter fotografou?

Em 2011 o jornal El Mundo publicou uma matéria afirmando ter encontrado o pai da criança. Se tratava de um menino chamado Kong Nyong. Segundo o jornal, o garoto recebeu ajuda na época, cresceu e se tornou adulto, mas em 2006 morreu vítima de uma febre.

 Deixo aqui meu respeito pelo trabalho desses fotógrafos e recomendação do filme

The Bang Bang clube.

Diante de uma tragédia, o que deve vir primeiro: o registro ou o socorro? Você acredita que as redes sociais nos tornaram mais insensíveis ao sofrimento alheio ou isso sempre foi uma característica humana? Quero muito ler sua reflexão nos comentários

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